Que domingo ela não vai, o ‘É o Tchan’ já deixou claro para todo mundo. Como a maioria dos axés da década de 90 esse também não faz sentido, logo aproveitaremos da brecha de interpretação para imaginar que domingo ela poderia ir para quaisquer lugares. Mas quem já parou para pensar nos verdadeiros motivos para ficar?

Voltaremos então em um velho clichê:  estamos correndo o tempo todo. Correndo para o trabalho, correndo para resolver um pepino aqui, descascar outro abacaxi ali, estamos correndo para compromissos sociais que nem queremos mesmo ir, correndo para assistir aquela série e não perder o timing dos comentários do pessoal do serviço ou daquele nosso grupo de amigos descolados, estamos correndo em círculos para compartilhar as tais experiências de nossa fabulosa vida cotidiana, cheia de fotos felizes e checkins em lugares glamourosos.  E adivinha só: ficar em casa acabou virando outra demanda, e você continua utilizando desse ‘templo sagrado’ para resolver  outras infinitas demandas.

A verdade é que estamos atolados demais para ficar e casa de verdade

Ficar em casa virou apenas uma desculpa bonita. Uma desculpa bonita para ver muitas séries por obrigação, para responder 345 e-mails  de um trabalho que você não sabe tirar da tomada, ou mesmo se afogar em atividades corriqueiras e planejadas utilizando um belo status de conforto. Hoje dizer “Não” para um evento pelo simples motivo de que ficar em casa é melhor tem sido cada vez mais raro.

O termo “ficar em casa” sempre vem  acompanhado de uma série de complementos – para adiantar aquele trabalho, para fazer uma maratona de séries, para cozinhar para amigos, para organizar a bagunça que fiz semanalmente, para salvar o final de mês e a falta de dinheiro. Qual foi a última vez que você passou um final de semana em casa sem planos, só por que ficar em casa com você mesmo é a melhor coisa a ser feita naquele momento?

Estou longe de  condenar as atividades citadas, é muito bom receber amigos e familiares, não há nada mais confortável que trabalhar de casa, ou mais necessário que organizar a casa, ou mesmo mais relaxante que assistir o que você ‘gosta’ diretamente do seu sogá e ainda mais coerente que ficar em casa nesses tempos intermináveis de crise financeira. O que vem ao ponto aqui é: será que dizer que “hoje você não vai.” não está virando só mais uma atividade corriqueira dessa rotina caótica?

Você consegue se lembrar qual foi a última vez que você simplesmente acordou e tinha na bagagem apenas preguiça mal curtida e “vários nadas” pra fazer? Pois é amigo, nem eu.

Será que, forçando a memória um tanto quanto cheia e gasta de tanta timeline digerida,  não chegamos a conclusão de que aquele último dia em que ficamos mais um tempo na cama pensando o quanto é gostoso apertar os olhos e cantar mentalmente alguma música dos Beatles não foi o início de um dia criativamente mais produtivo?

Que se dane todo o seu planejamento

Quando você decide ficar em casa só para aproveitar um excelente dia consigo mesmo você dá um descanso para o seu cérebro trabalhar em paz. E acredite, seu dia pode virar uma oficina de móveis regada a tutoriais engraçados do YouTube,  pode ser o retrato da produtividade de quem ficou lendo encartes e ouvindo CDs  e somando horas sentado com perna de índio na frente do som ou até mesmo pode resultar em uma série inimaginável, que adivinha só:  você encontrou sozinho zapeando as categorias do Netflix, sem spoiler ou comentário megalomaníaco de ninguém. É quando você não tem planos que aquela receita nasce, aquela que você mal sabia como terminar e colocou aqueles três copos de conhaque no lugar do leite.

Já pensou nas descobertas que esse dia pode te proporcionar? Quando foi a última vez onde você pode fazer quaisquer coisas em pressão, sem comentários, sem demandas, sem deadline. Só você sua sensibilidade e sua vontade.

E quando o mundo for te receber de volta das ‘férias’

Uma vez eu ouvi de uma querida que os tapetes de ‘welcome’ nas portas de entrada das casas sempre estão na ordem errada – quem deve dar boas vindas pra quem sai é o mundo.

Quando ficar em casa significar mais do que um “por que eu não tenho nada melhor para fazer” ou “por que eu tenho que resolver (insira aqui qualquer motivo banal aqui)” será quando aproveitar o dia de ‘reclusão’  vai ser completamente dispare a se lamentar no sofá acompanhado das demandas que seus amigos geraram para você no Netflix.

Você vai  dizer que não vai àquele compromisso seja ele no sábado, no happy hour da sexta ou até quando você gritará para o domingo “eu não vou, vou, vou vou” e ficará em casa por livre e espontânea preguiça planejada, é nessa hora meu amigo… Que mundo irá te saudar com muito mais vontade no outro dia e que você irá retribuir as boas vindas com muito mais energia, preparo e espontaneidade, afinal se você adora ficar consigo mesmo sem planos que outra criatura da Via Láctea não irá ?

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