É um descabimento desde criança, de ser sempre a última a ser escolhida na queimada.Um desacerto desprendido de espaço geográfico e coordenação motora em forma de menina, de ficar sem par na quadrilha da festa junina e ser o arbusto na peça do final de ano da escola. Há de se ter alguma graça e algum molejo pra ser descolada, sempre ouvi alguma sobre um tal jogo de cintura. Tanto jogo pra pensar. Quem precisa de jogo de cintura quando com uma baralho cê consegue jogar Pif e Buraco?  Mas então. Parece que sempre foi  importante isso se desdobrar em delicadas curvas, desde que o mundo é mundo e os vestidos correm pela terra.

Acontece que nas tais famosas filas onde  nos é dado os incríveis dons para a vida, como encostar a língua no nariz, escrever que “o outono é sempre igual e as folhas caem no quintal” e fazer conta de dividir sem a calculadora,  o Andrezão passou duas vezes na fila molejo e pegou o meu lugar. Com o passar dos anos, eu descobri que essa história toda de malemolência foi coisa que a Céu colocou na minha cabeça e que é que nem braço, uns tê, outros não. Não tem jeito – a Natureza decidiu que meu corpo não se curva.

Não adianta. Não há Billie entoando “Cheek to Cheek” nem Mel Gibson dançando ao som de “I won’t dance” e ainda fazendo passos junto com Sinatra em qualquer filme da década passada, nem  Ragatanga ou Macarena – ah como eu queria Ricky Martin, como eu queria… É o retrato da pura frustração dos pés, que se desengonçam a ouvir o samba da Mangueira sem saberem deslizar pelo chão e levarem o corpo num movimento minimamente cadenciado. Se recolhem, um contra o outro junto ao resto do corpo sentado em qualquer cantinho do salão – a Natureza decidiu que meu corpo não se curva.

E eu teimei, saí da tática carnavalesca do dedinho, tentei um rebolado aqui, algum tremelique acolá. Eu até assisti a Beyoncé mil vezes, fui em show e tudo mais. Mas acontece que meus pés e minha cabeça insistiram em só conseguir um movimento acompanhando o baixo, um movimento quase sistêmico pelo ritmo. Típico de quem está numa jam balançando a cabeça e batendo os pés no chão, contando os tempos – a Natureza decidiu que meu corpo não se curva.

Cada dia no espelho era uma estranheza diferente, mas que diacho de mulher que não sabe acompanhar o passo! Essa mulher que é dura feito tábua. Será algo quebrado, será castigo de outra vida ser assim mulher sem requebrante nenhum? Mas o que é esse tal requebrado que exige tanta curvatura?

Curvatura tem, ué. É cada malabarismo que a gente faz com ela. Espia pra ver.

Olha aqui Dona Natureza, olha bem o que aconteceu. Tá vendo aquela cerca ali, ó? Pois bem! Eu abaixei pra passar nela. Mirei bem o outro lado e fui, uma curvatura e pluft. Sem estalo das juntas nem nada. Tem coisa mais graciosa que chegar do outro lado da cerca? Tudo bem, tudo bem… ficou aqui algum arranhado daquela parte do arame farpado que escapoliu, eu me embaracei um pouco com o vento que soprou e trouxe esse bando de cabelo pro olho. Mas acontece, não é mesmo? O importante é que houve curvatura. E digo mais, eu cheguei  lá do outro lado rapidinho e você vem com essa de que o meu corpo não se curva?

E aquele outro dia, aquele primeiro dia em 23 anos que eu completei a fileirinha na cartela do bingo? Qualé Natureza, se você não considerar aquela curvatura na tal dancinha da vitória pós grito de “bingo!”, eu não sei o que é curvatura do corpo mais. Teve até rodopio na entrega do prêmio, mesmo ele sendo um conjunto de pirex.

Isso por que eu nem vou contar daquela noite Natureza, aquela mesmo das costas arqueadas. Lá no sofá durante aquele filme depois do convite ingênuo. Aquela tarde de outono mesmo, que só nos três sabemos. Você vem me dizendo que isso não é curvatura?

Acho que isso é tudo coisa da sua cabeça Natureza.

ou vai ver eu que sou teimosa mesmo. Tá mais pro segundo né, até combina: dura como uma tábua, teimosa como uma porta. Mas uma porta que curva sim, curva só de teimosia e destrambelho.

Deve faltar alguma graça, aquela do sentido literário, Aquela da curvatura do pescoço da dama na valsa vienense, mas tem graça a graça  de quem acaba curvando o corpo de rir do que não deu, ou do que deu bem certo. Graça de achar graça mesmo. De rir até a barriga doer. É essa curva meio sem equilíbrio, da felicidade do copo meio cheio no caos.

peggy

Acho que você vai ter que conviver com esses espasmos ditos errôneos, Natureza. Das curvas que eu acabei dando por conta própria. Parece que o jogo virou não é, queridinha? Da próxima vez, que tal a decidirmos alguma coisa juntas?

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